A voz da solidão

Dona Neta. Meiga Dona Neta. Paciente, amorosa, resignada diante das adversidades da vida, mas sempre disposta a lutar o bom combate para criar seus dez filhos.
Viveu numa terra onde tudo ou era obrigatório ou era proibido.
A pobreza do agreste nordestino, o sol escaldante, a fome.
A pessoa faminta não reage. Sabe das injustiças, sabe das arbitrariedades, do que leva o ser humano a fazer quando se corrompe…
Mas não. Não tem forças para reagir e dar um basta nessa nefasta turbulência, pois tem fome, e com fome, permanece desfibrada esperando na fila de um matadouro. É assim.
Mas como lutava Dona Neta para cuidar de seus dez filhos num solo onde o que se planta não se colhe?
Pensava nela durante a cerimônia que o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo realizou como reflexão sobre o câncer de mama, o “Outubro Rosa”.
Minha mãe, Dona Neta, morreu jovem, aos 44 anos, já na cidade grande, justamente de câncer de mama. E morreu calma, sem se preocupar com a morte, sabedora de que havia cumprido sua vida espiritual em nosso mundo e passageira no barco de Caronte, atravessaria a um lugar melhor, mais justo, cheia de glórias a dar ao estar finalmente sobre as regras de Deus, o Grande Arquiteto do Universo.
Após bom tempo e aos 58 anos de idade, descobri a mais perfeita solidão daqueles que recebem o diagnóstico médico: você está com câncer.
A pessoa pode estar cercada por uma multidão de amigos, mas se sente só, absolutamente só, como se voz nenhuma possa ser ouvida.
Sim, passei por esta prova. Tive câncer nos intestinos. A sorte foi ter descoberto a moléstia ainda cedo, ou seja, com boas chances de o tumor ser extirpado com duas enormes cirurgias e o tratamento de Quimioterapia e Radioterapia, mas principalmente com Fé em Deus subsequente realizado com afinco, pudesse me levar à cura.
E foi o que aconteceu. A minha saúde retornou. E se algo colaborou para tanto, foi a companhia permanente de mãe Josefa na cabeceira das dores e incertezas que tanto me afligiram.
Dos desígnios de Deus, nada se sabe. Mas, vivendo a realidade da vida, em seu dia a dia, temos a medicina à disposição.
É fundamental que façamos a nossa parte, dentro da filosofia de que é melhor prevenir do que remediar.
Quando descoberto em estágio precoce, o câncer tem cura.
Vamos, portanto, cuidar da saúde. Em sua época, Dona Neta não tinha ao seu dispor tanta tecnologia. Mas nós temos. E deles devemos lançar mão periodicamente.
Que ninguém queira experimentar a solidão de um diagnóstico avançado e sem retrocesso. Viver é a melhor resposta.

Ramalho da Construção
Sindicalista e deputado estadual pelo PSDB-SP

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