ARTIGO – Dieese comprova: trabalhador perde com a terceirização irrestrita

Há bons pares de anos, as coisas não estão caminhando nada bem no Brasil. E isto todo mundo sabe, pois sente os reflexos da crise financeira, social e política na pele.

 

O problema maior, todavia, é a ausência de esperança que tomou conta do trabalhador e pode ser medida por pesquisa recentemente divulgada, onde subiu a reprovação e a desconfiança da população quanto ao atual governo.

 

Paira no ar um sentimento de impotência e de contida revolta da sociedade quando vê o presente e olha para o futuro.

 

As medidas propostas por Temer e sua equipe econômica em nada agradaram, atesta a pesquisa de opinião.

 

Uma delas é a da terceirização irrestrita, aprovada em toque de caixa.

 

Óbvio que a política desperta paixões nas pessoas organizadas em partidos e entidades de defesa da classe trabalhadora. E paixões descontroladas costumam levar à cegueira.

 

Mas há uma entidade, da maior confiança, que, antes de se pronunciar sobre toda e qualquer medida, faz estudos científicos e criteriosos sobre determinadas decisões do Executivo, como é o caso da terceirização, irrestrita e, portanto, desenfreada.

 

Tal entidade é o Dieese -Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos -, que nasceu da luta dos dirigentes sindicais brasileiros. Ela foi fundada em 1955, com o objetivo de desenvolver pesquisas que subsidiam as demandas dos trabalhadores.

 

Pois bem. O Dieese acaba de divulgar a Nota Técnica 172, chegando à conclusão que a terceirização irrestrita será lucrativa para o empregador e um mau negócio para o trabalhador.

 

O estudo publicado se baseia na Rais (Relação Anual de Informações Sociais, tendo como base o ano de 2014). E veja algumas conclusões -confiáveis e desprovidas de paixões, repito -às quais os especialistas do Dieese chegaram:

 

• A taxa de rotatividade descontada é duas vezes maior nas atividades tipicamente terceirizadas (57,7%, contra 28,8% nas atividades tipicamente contratantes);

 

• Nas tipicamente terceirizadas, 44,1% dos vínculos de trabalho foram contratados no mesmo ano, enquanto nas tipicamente contratantes o percentual foi de 29,3%;

 

• 85,9% dos vínculos nas tipicamente terceirizadas tinham jornada entre 41 e 44 horas semanais. Nos setores tipicamente contratantes, a proporção era de 61,6%;

 

• Salários pagos nas atividades tipicamente terceirizadas fora do Sudeste eram menores, o que reforça as desigualdades regionais;

 

• Afastamentos por acidentes de trabalho típicos nas atividades tipicamente terceirizadas são maiores do que nas atividades tipicamente contratantes: -9,6% contra 6,1%;

 

• Salários nas tipicamente terceirizadas eram, em média, 23,4% menores do que nas tipicamente contratantes (R$ 2.011,00 contra R$ 2.639,00).

 

Esses são os fatos, escancarados e escarrados. Concordo em gênero, número e grau com a declaração da economista Regina Camargos, técnica do Dieese. Até porque em minhas conversas com a sociedade organizada, há muito tenho expressado semelhante opinião:

 

“A empresa que presta serviço é obrigada a se adequar às condições econômicas da contratante. Se quem contrata pede desconto, a terceirizada, para não perder o contrato, aceita e faz os seus ajustes, demitindo parte do quadro e contratando outros empregados com salários mais baixos. Com a taxa de desemprego alta, muitos trabalhadores aceitam valores reduzidos”, afirma Regina, após estudos detalhados.

 

Ela sublinha ainda que o projeto, aprovado no atropelo para atender o governo, entra em conflito com a PEC 287, supostamente essencial para dar equilíbrio às contas da Previdência.

 

Ora, ficamos diante do momento em que o óbvio se instala. Se o governo diz haver déficit na Previdência e precisa arrecadar mais, esse PL é totalmente avesso a tais pretensões.

 

A consequência disto tudo é o clássico tiro no próprio pé. Gera desemprego, diminui salários e, assim sendo, o governo promove redução de arrecadação, afetando a Previdência.

 

E mais: com baixos salários, o poder de fogo das famílias brasileiras cai, assim como a produção e a arrecadação de impostos.

 

Estamos numa ciranda que, na verdade, virou roleta russa.

 

Ramalho da Construção

Sindicalista e deputado estadual pelo PSDB-SP

carteira2FOTO: MARCOS SANTOS/USP IMAGENS

 

 

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