Diálogo, ainda que tardio

Quando a bola era impiedosamente castigada, com zagueiros jogando na base do bumba meu boi, ou seja, só chutão, Gentil Cardoso, técnico de futebol das antigas, dizia:
– Menino, venha cá e me responda. A bola é feita do que?
– De couro, seu Gentil.
– E da onde se tira o couro, meu filho?
– Da vaca, professor.
– E vaca come e gosta do que, meu rapaz?
– Capim…
– Então, ponha ela no chão, rolando na grama.
Pois é. O exemplo de Gentil Cardoso cabe bem no Brasil de nossos dias. As instituições não se entendem. Apavoradas, dão de bico para onde o nariz aponta. E o brasileiro, que entende do riscado, assiste a um jogo absolutamente sem qualquer noção. E sofre com isso.
A administração Temer pratica um futebol que julga objetivo, sem dribles, sem firulas. Pratica aquele tipo de pelada sem encanto, desprovida de sentimento e magia. Tem cintura dura, não pensa o jogo, não tem imaginação.
A falta de criatividade vai acabar derrubando o presidente que, sem dúvida, é perna de pau e joga pelo time do Arranca Toco Futebol Clube.
E essa ausência criativa advém, a meu ver, da falta de diálogo, de uma política participativa e transparente.
Verdade seja dita. Esse tipo de estilo, sisudo, foi inaugurado pela presidenta Dilma Roussef que, no limiar de seu primeiro mandato, refutou todo e qualquer tipo de interlocução com a classe trabalhadora. Agindo assim, caiu. O que deverá acontecer com Temer se não ficar rouco de ouvir a sociedade…
“No dia a dia, somos uns contra os outros, classe versus classe, corporações frente a corporações, cada qual no seu quadrado, com intersecções cada vez mais difíceis de se realizarem. O Brasil se desintegra”, diz Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, em artigo publicado na Folha de S. Paulo.
Concordo com ele. Se não houver diálogo franco e aberto, o preço será a continuação da novela da falta de governabilidade que todos estamos assistindo.
Precisamos retomar a trajetória de crescimento, combater o desemprego, além de discutir as reformas que foram aprovadas e as que estão sendo votadas.
“O Brasil precisa se modernizar. Na área econômica, necessitamos de ajustes na Previdência e, também, nas relações trabalhistas. Mas reformas que entregam os brasileiros à sanha do grande capital e das indústrias de saúde e de aposentadoria privadas, não servem”, observa Paulinho da Força. É isso. As intransigências de nada servem. A força do diálogo precisa se impor. Caso contrário, permaneceremos no fundo do poço, escavando-o ainda mais.
Ramalho da Construção
Sindicalista e deputado estadual pelo PSDB-SP

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