Pacote fiscal do governo desagrada empresários e sindicalistas

Analistas são céticos quanto à capacidade do governo Dilma de obter aval do Congresso às medidas fiscais, principalmente de aumento de impostos. Com a incerteza, dólar voltou a subir
O pacote fiscal apresentado na segunda-feira pelo governo desagradou todo mundo. O mercado financeiro, apesar da expectativa positiva antes do anúncio, reagiu mal no dia seguinte. Depois de recuar 1,63% na véspera, o dólar voltou a subir ontem e fechou com alta de 1,28%, cotado a R$ 3,863. O juros futuros dispararam. A Bolsa de Valores oscilou e acabou terminando o dia com alta tímida de 0,17%.

Os empresários não esconderam a insatisfação com as medidas, principalmente porque o governo mexeu, sem aviso prévio, no Sistema S, que vai perder R$ 8 bilhões — 33% dos R$ 24 bilhões movimentados anualmente. E, apesar do prometido corte de R$ 26 bilhões, não deu sinal de verdadeira mudança na estrutura engessada dos gastos obrigatórios. Para especialistas, o governo optou pelo caminho mais fácil: elevar a carga tributária dos brasileiros.

Nem mesmo os sindicalistas, tradicionais aliados, apoiaram o ajuste da presidente Dilma Rousseff. Em um ato público na Avenida Paulista, no coração de São Paulo, “em defesa da democracia, do emprego e do salário”, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, classificou as medidas como lamentáveis e criticou o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

“É um pacote recessivo, que imputa a culpa da crise aos trabalhadores. Vai na direção contrária às propostas que a CUT tem apresentado. Esse pacote dialoga com a política de Levy, que é de corte e não de investimento, de retirada de direitos dos trabalhadores e dos servidores públicos federais”, disse Freitas.

A principal crítica dos especialistas é que o novo ajuste está ancorado em aumentos de impostos que precisam ser aprovados pelo Congresso, principalmente, na Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF), que deverá gerar receita de R$ 32 bilhões em 2016.

ImpopularNa avaliação do especialista em contas públicas José Matias-Pereira, professor de Administração Pública da Universidade de Brasília (UnB), a presidente não tem capital político, nem apoio da população para aprovar o tributo. “O pacote é cheio de medidas paliativas”, disse. “O país precisa de reformas estruturais, na administração pública, na Previdência, na tributação e na política, mas Dilma não tem competência, nem habilidade política para isso”, resumiu.

O economista Daniel Cunha, estrategista da XP Investimentos em Nova York, destacou que a reação negativa dos mercados acabou anulando os ganhos da véspera porque o governo apresentou um pacote abaixo das expectativas, com a maior parte das propostas dependendo do Congresso.

Cunha elogiou a tentativa do governo de tentar evitar que outras agências sigam o exemplo da Standard & Poor’s e também rebaixem a nota de crédito do Brasil. Para ele, no entanto, “a magnitude do pacote foi pouco significativa”. “O primeiro passo da reforma fiscal é o fator político. Dilma precisa recuperar o mínimo de governabilidade e coordenação para ter capital suficiente para aprovar as medidas no Legislativo. Caso contrário, a sensação de vulnerabilidade do país permanecerá forte”, explicou.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, criticou o corte no Reintegra, o programa que restitui tributos aos exportadores. A alíquota tinha sido reduzida, em fevereiro, de 3% para 1% e, em 2016, cairá para o valor simbólico de 0,1%. “No início do ano, o governo dizia que exportação era prioritária, mas, agora, não é mais. Com o rebaixamento do país e dos bancos, os exportadores vão deixar de ganhar com o Reintegra e ainda vão ter que pagar 2% a mais de custo financeiro quando forem tomar crédito para exportar”, lamentou.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2015/09/16/internas_economia,498804/pacote-fiscal-do-governo-desagrada-empresarios-e-sindicalistas.shtml

siga-nos