A história de um dos maiores sindicatos da América Latina!

O trabalhador da Construção Civil foi o grande responsável pela transformação da cidade de São Paulo numa das cinco maiores do mundo.

Em 1899, pouco antes do início do século 20, São Paulo de Piratininga não passava de uma Província dominada pela agricultura e pelos barões do café.

Naquele ano, entretanto, foi criada a Light, trazendo a novidade de uma nova força, de uma força estranha, a energia elétrica.

Foi como se um disco voador houvesse pousado na Avenida Paulista de nossos dias.

Bondes, que eram puxados a burro, passaram a ser movidos à base de eletricidade.  E o paulistano tinha receio de entrar nele, por medo do desconhecido, de ser eletrocutado.

O choque de uma nova era havia chegado ao ponto. E, tijolo por tijolo, num desenho lógico, iria transformar a São Paulo de Piratininga no maior parque industrial da América Latina.

Mas, para que a energia elétrica pudesse ser produzida, era necessário construir usinas através da energia do ser humano.

 

Trabalho feito na unha

Coube ao operário da Construção Civil fazer, quase que artesanalmente, a Usina de Piratininga e, duas décadas depois, a Usina Henry Borden, ambas da Light, empresa multinacional de energia que iniciou suas atividades em 1899.

Não havia os recursos tecnológicos de hoje. A obra precisou ser feita na unha, com operários escavando rochas, sem ferramentas adequadas e sem nenhuma entidade para zelar por seus interesses.

Na Usina Henry Borden, foto acima, foi dado o pontapé inicial para a fundação do Sintracon-SP. Especialmente devido ao grande número de acidentes, muitos fatais, que lá ocorreram.

 

Não foi por acaso, portanto, que o primeiro Sindicato da Construção Civil foi fundado em Cubatão, justamente por operários do setor que trabalhavam na construção da Usina Henry Borden.

 

Vista geral da Usina Henry Borden, de Cubatão. 1948. Foto: acervo da Fundação Energia e Saneamento

 

Abel Pereira

Não há documentos sobre isso, mas, sim, a palavra de uma pessoa extremamente representativa para todos nós: o já falecido, Abel Pereira, que beirou a idade centenária e defendeu, até o fim, os interesses da categoria, trabalhando no nosso Sintracon-SP.

 

Segundo Abel, o embrião desse Sindicato teria ido, logo após, para o bairro de Santo Amaro, onde os operários começaram a fazer a Represa Billings, alimentada pelas águas do Rio Pinheiros e que, à custa de muita obra, teve seu curso revertido, ou seja, passou a andar para trás.

Ainda de acordo com as memórias do nosso querido e saudoso Abel Pereira, a sede do Sindicato dos Trabalhadores da Construção teria se instalado em vários pontos da Capital paulista: rua Florêncio de Abreu, rua Tabatinguera, rua das Carmelitas e rua da Glória.

Foi um percurso longo até que o Sindicato, já oficialmente reconhecido pelo governo, passasse a ter, em 1948, a sua sede própria da Rua Conde de Sarzedas, na Baixada do Glicério.

 

A invenção do crachá

Em seus “causos”, Abel contava que nas usinas construídas muita gente morreu. Por isso – e pela primeira vez – decidiu-se pelo uso de crachá de identidade, evitando possíveis indigências.

 

Mão de obra estrangeira

Se hoje a esmagadora maioria dos trabalhadores da Construção Civil de São Paulo é formada por nordestinos, nos primórdios da história do Sindicato, mais precisamente em 1936, quando ele foi fundado oficialmente, a mão de obra tinha forte influência europeia: portugueses, espanhóis, italianos, lituanos, estonianos, argentinos, romenos, alemães, austríacos, húngaros, russos, poloneses, tchecos e franceses, que, basicamente, vieram para o Brasil após a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1918.

 

Era Vargas

O nosso Sintracon-SP, que hoje tem 87 anos de atuação em prol da categoria, nasceu na era Getúlio Vargas.

Nasceu de um Estado recém-saído da Revolução de 30, onde o modelo liberal oligárquico, da política do café com leite, que tinha no Poder a alternância entre políticos de São Paulo e de Minas Gerais, deu lugar a uma política autoritária e excludente.

O funcionamento dos sindicatos, a base de decreto, estava condicionado ao reconhecimento do Ministério do Trabalho.

As condições impostas por Vargas descartavam toda e qualquer autonomia.

A partir de 1939, já na vigência do Estado Novo, o reconhecimento oficial das entidades obrigava que os sindicatos tivessem cooperativas de consumo, serviços médicos e escolas profissionais.

 

 

Sindicalismo “repartição pública”

Surgia o sindicalismo de clientelismo, o sindicalismo meramente assistencial, que, na ditadura Vargas, seria reforçado com a construção de colônias e outros equipamentos destinados ao lazer.

O Poder fez do sindicato repartição pública. Era uma extensão do Estado, o que permitiu o surgimento do peleguismo.

As poucas iniciativas de dar ao Sindicato uma conotação política combativa foram esmagadas pelo autoritarismo.

A reação, na Construção Civil, atendeu pelo nome de João Louzada que, em 1958, organizou uma frente de oposição a um sindicato dominado por pelegos, que fazia o jogo das elites.

Assim como Louzada, diversos membros da diretoria eram ligados ao Partido Comunista.

Eles começaram a fazer um intenso trabalho de conscientização política da base e, assim, agindo dentro da diretoria, conseguiram extirpar a antiga fórmula de se fazer sindicalismo, numa eleição que teve três escrutínios e urnas queimadas.

 

Golpe militar

De 1958 a 1964, o Sindicato da Construção Civil teve anos de glória. Até que veio o golpe militar, que cassou e expulsou o então presidente do Brasil, João Goulart.

 

Ao centro, João Louzada

Em consequência, João Louzada, também vereador por São Paulo em duas legislaturas, foi cassado e deposto. Pagou, no exílio, um árduo preço por suas convicções, assim como diversos companheiros seus de diretoria.

 

Ramalho da Construção

A luta de Lousada, todavia, não foi em vão. Seu modelo de fazer sindicalismo criou escola. Escola frequentada pela administração atual do Sintracon-SP, liderada por Antonio de Sousa Ramalho, o Ramalho da Construção.

 

 

Sindicalista com visão moderna, Ramalho passou a defender mudanças nas relações entre o capital e o trabalho.

Ele conseguiu aumento real de salários para uma categoria que passou anos a fio só com a reposição das perdas inflacionárias.

Nordestino de Conceição do Piancó, na Paraíba, o Ramalho, assim como a esmagadora maioria dos que hoje trabalham na Construção Civil, veio para São Paulo em busca de melhores dias, fugindo da Morte e Vida Severina.

Antes de entrar para a diretoria do Sindicato, Ramalho trabalhou em mais de 700 canteiros de obras.

Logo se destacou como diretor e, na Presidência do Sindicato, logrou êxito na luta para dar voz e vez à categoria de um setor que responde por boa parcela do Produto Interno Bruto do Brasil.

 

Reconhecimento na Base

Seu trabalho foi reconhecido pela base através da democracia e da transparência representadas pelo voto. Sem imposições e sem maracutaias. Sempre falando com franqueza.

Sua principal filosofia é a de fazer girar a roda do desenvolvimento, com mais produção, mais crescimento, mais trabalho e renda.

 

A greve das greves

Foi em 1994, sob a coordenação de Ramalho da Construção que, por sua combatividade, logo assumiria a Presidência do Sindicato da categoria.

O movimento paralisou a maior cidade da América Latina de 24 de setembro a 10 de outubro, quando a causa foi julgada pelo Tribunal Regional. A Justiça decidiu conceder aos trabalhadores 5% de aumento, estabilidade de 90 dias e a manutenção das cláusulas sociais.

O sindicato patronal não gostou. Entrou com efeito suspensivo. Mas a ação do Sindicato obrigou as empresas a manterem a decisão.

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